sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Anticristo


Finalmente um filme do diretor dinamarquês Lars Von Trier que consegui assistir até o final e com vontade. Não diria que é um filme bonito, até porque é um tratado de doenças mentais levadas a cabo, mas é dolorido, chocante, irritante, revoltante, ou seja, toca em sentimentos íntimos e causa incômodo. Inquietante talvez seja o melhor adjetivo.

Infelizmente não encontrei tantas críticas quanto gostaria para poder entendê-lo melhor. Do que li: um fazia uma correlação com o filme e o livro de Nietzsche homônimo (interpretação que nada posso comentar já que não li o livro); outro considerava o refúgio do casal sem nome (só chamados de Ele e Ela) no Éden (uma cabana no mato) a recriação da Gênese bíblica se quem tivesse criado o mundo fosse o Satanás.

Em entrevista Lars Von Trier disse que não tem que explicar nada, que fez o filme para ele mesmo enquanto estava num período de depressão profunda. Relendo as interpretações acima e pensando nas minhas me pergunto se não são dignas de riso, como a raposa que passa e diz (é, a raposa fala) “o caos reina”.

São tantos símbolos, tantas imagens tocantes, tanta informação que ainda não digeri tudo. A seqüência em preto e branco é a de melhor qualidade de fotografia e música, apesar de sórdida, sarcástica. Enquanto o casal anônimo transa, o pequeno filho Nick se taca da janela em um bonito dia de neve.

Ela, uma escritora, que no verão anterior já tinha ido ao Éden com o filho com a finalidade de escrever sobre genocídios femininos questiona a todo o momento: seus medos, o que é o bem e o mal, o cerne e a razão de tudo após a morte do filho. Enquanto Ele é um terapeuta que cometendo um erro crasso de ética quer tratar a própria esposa e considera que as indicações medicamentosas são desnecessárias.

Enfrentar o Éden é a terapia (além de sexo) indicada por Ele. E lá é onde tudo se desenrola. Questionamentos, medos, cenas de violência e por fim a automutilação dela, que retira o próprio clitóris com uma tesoura. Acho que isso é meio óbvio que ela não se sente digna a ter prazer (ou sente culpa por senti-lo, já que viu o filho pulando enquanto sentia prazer sexual).

Não sei se o Éden é o inconsciente de alguém, se o veado tem algum significado, realmente não sei muita coisa, ou nada. O que acho mais plausível é uma alusão a gênese bíblica, um homem e uma mulher no Éden, descobrindo o bem e o mal e a constatação de que o prazer é um pecado a ser instinto, só o medo e a dor reinam.

Vale destacar que Ela sempre colocava os sapatos do filho trocados, o que lhe causou uma fratura constatada na autópsia. E ambos só percebem tal fato ao olharem fotos do filho. Na minha cabeça isso denota a ausência de sentidos, o não saber o que é direito e esquerdo, questionar o certo e o errado.

Por fim, é sarcástico no final do filme lembrar a frase que Ele fala para Ela ao sugerir a terapia “não existe ninguém que conhece melhor o que tem dentro de você do que eu”. Ninguém conhece por completo a si próprio, quiçá o outro.

Lição do filme: nunca deixe de tomar seus remédios psiquiátricos se um médico lhe prescrever...

2 comentários:

Eu por mim mesma disse...

Gostei dessa crítica: http://veja.abril.com.br/260809/uma-experiencia-radical-p-136.shtml

De alguém que realmente sabe escrever...rs...

Tiago Moralles disse...

O filme no fim das contas é isso, um sequestrador de palavras.
Eu gostei.