quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O tempo destrói tudo ?


"O tempo destrói tudo." Essa é uma frase repetida algumas vezes no filme Irreversível, produção francesa de Gaspar Noé. Em 2002, quando foi apresentado em Cannes, metade da platéia levantou na cena do estupro de dez minutos. Platéia sair do filme em Cannes é algo que me chama a atenção, como nos filmes do Lars Von Trier. Mas ao assistir a esse filme há poucos dias por indicação de uma pessoa ainda um pouco distante, não tive vontade de desligar ou levantar.

O filme é contado de trás para frente, com uma câmera irrequieta, que no começo incomoda e depois acostumamos. Até porque a história vai ficando mais clara, você vai montando o quebra cabeça. É nítida a animalização dos personagens de Marcus (Vicent Cassel marido na vida real da Monica Belucci) atual namorado de Alex (Monica Belucci) e do ex marido Pierre ao descobrirem sobre o estupro.

O início mostra Marcus e Pierre atormentados, a procura de Tênia, quem estuprou Alex. Em uma boate gay denominada Reto, onde todo tipo de orgia, sado masoquismo é mostrado sem pudores, ambos atacam um possível agressor deles mesmos. A brutalidade, o rosto do agredido afundado, com um sorriso de prazer é incômodo.

O filme é incômodo, não é bonito, não recomendaria a ninguém. De toda forma, a partir daí começa-se a entender o porquê da animalização. Mostram o estupro, sem cortes, também incômodo (novamente). E então as cenas seguintes são mais suaves, a festa onde os três estavam antes de Alex partir para casa.

Festa esta também regada a drogas, sexo e álcool, de alguma forma me fez pensar por que mais aceita do que a primeira?

Depois a relação de Alex e Marcus, leve, quase descompromissada, mas provavelmente marcada pela gravidez de Alex e o filme acaba pelo começo.

Neste caso sim, o tempo destruiu tudo. Mas esta é uma máxima ? Pensei nesta frase para recomeçar a escrever meu blog, porque o tempo o destruiu sim. Muita coisa aconteceu, coisas boas e ruins. Destruição de laços, mas também criação de vários outros, muito mais saudáveis.

E principalmente, uma recriação de mim mesma, quase três anos depois, talvez não tão mais poética, talvez nem tão mais densa. Mais leve, mais feliz, mas não menos crítica.

Se o tempo destruiu, cabe a nós mesmo construirmos de novo, então vamos lá, nesta tarefa incessante que é a vida !

sábado, 30 de janeiro de 2010

Estadista Global

Inspirada pela minha gloriosa professora de história Helen e também pelo meu exemplo, meu pai, o que posso chamar de literalmente um self made man, considerando que ele saiu do NE sendo um aluno repetende de escola pública a um residente aprovado pelo HC de SP, sempre acreditei que as mudanças sejam possíveis.

E, já que meus colegas de profissão e de trabalho PSDBistas ferrenhos não me ouçam, sempre fui uma PTista de alma, por mais que vista minha máscara diária ao ouvir críticas opositoras ao governo atual. No entanto, meu questionamento é inevitável, ser PTista nos anos 90 é o mesmo que ser nos dias de hoje? Teria eu que militar pelo PSOL ou algo do nível porque tudo que leio e constato são as similaridades entre a teórica direita e esquerda do País?

Não sei, o que talvez eu tenha uma idéia é que ao malhar o governo Vargas para minha avó ela ficava extremamente ofendida (também devido as minha orientação histórica), atualmente eu fico ofendida ao malharem o Lula. Seria ele somente um populista? Ou como dizem, melhor um populista que tenta fazer algo do que um direitista? Será que essa assunção é tão tosca que melhor o rouba, mas faz? Fato é que ao ganhar o título em Davos de Estadista Global, seu populismo é inquestionável.

De novo, não sei. O que sei é que eu admiro muito a Dilma, principalmente porque, mesmo sendo tosca, ela sim foi responsável por várias conquistas do governo atual sendo tanto ministra da Minas e Energia (na época do apagão) como ministra da Casa Civil nos últimos anos. Vejo a marca dela presente em todo lugar. A machista lenda que por trás de todo grande homem há uma grande mulher.

Acredito hoje, que por ser mulher e economista como eu, ela deve sim continuar o legado do Lula, portanto está claro meu voto para 2010, por mais que talvez ele não tenha tanta base política econômica. Talvez a política tanto quanto o amor, seja irracional, apenas se sente, não se explica.

PS: ando com vergonha de manter o título diversidade no meu blog depois de ler na coluna do Simão que o termo é de ONG, ou muito USP, mas sei lá, vou manter minhas origens.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ter que...

O ano novo chega, sem pedir licença, simplesmente acontece, como tudo na vida. No entanto, apesar da falsa propaganda que as festas do fim de ano que são uma celebração da vida, encontros com os familiares, felicidade absoluta; para o resto da humanidade real o tempo de balanço, imposto no nosso subconsciente, o fim de um período, o início de outro, com metas intangíveis, pensamentos positivos em excesso, porque é assim e pronto.

Todo mundo tem que em 2010 em ser feliz, ser bom de cama, ter um emprego satisfatório, ser magro ou no mínimo atlético, encontrar parceiros compatíveis, conciliar o bendito tempo que nos suga das obrigações e o tempo que devemos ter com nossos queridos companheiros de vida.

É tanta pressão, tanta cobrança que se explode em fogos de artifício, não por acaso tão artificiais quanto nossas expectativas. A realidade se impõe em todo dia primeiro. O primeiro dos trezentos e sessenta e cinco.

Minha proposta é não ter que fazer nada, simplesmente deixar a vida acontecer, sem perder as rédeas desse cavalo alado que nos leva aos lugares e a situações inesperadas. A vida não é fácil para ninguém, não temos um final feliz como nas novelas, então aproveitemos os momentos errados, as pessoas erradas e vivemos !

Principalmente, olhemos para nosso próprio umbigo e calculemos nossas imensas limitações, e consciente delas, aceitemos as zilhões de limitações dos outros, porque ninguém é melhor do que ninguém, somos todos seres humanos, falíveis, patológicos, buscando incessantemente por o menor de erros possível.

Agradeço meu único leitor Tiago, e se houver outros, que passem a comentar, porque sem comentários, um blog não sobrevive.

Um feliz 2010 para todo o mundo e que nossos momentos de folga sejam intensamente aproveitados, sem a pressão que nos move diariamente.

domingo, 29 de novembro de 2009

2012 – O milagre da telefonia móvel

Por não ter percebido que comprei minha passagem de volta para casa no horário errado, acabei tendo que ficar algumas horas a mais na Ogrolândia. Para passar o tempo, fui com minha progenitora ao cinema, e acreditem ou não, o filme menos pior era o tal do 2012, o sub título não sei.

Outro dia, quando lia a Folha On line, confesso que achei interessante a sinopse ao ler uma crítica sobre esse filme, que apesar da malhada do escritor, soube das pesquisas feitas em estações subterrâneas com os neutrinos. No filme esses tais neutrinos sofrem uma mutação e passam a produzir microondas, a mágica para a destruição, não sei explicar, eu sinceramente cochilei nesse momento.

Enfim, acordei no momento em que tudo estava se destruindo, e o John Cusack protegia sua família, numa sequencia de cenas que nem no filme Duro de matar XX vai conseguir superar. De pular rachaduras da crosta terrestre, a andar em cima de lava, de tudo acontece e nem um arranhão em ninguém.

Se a intenção era assustar, me deu sono, raiva, e depois achei engraçado o milagre da telefonia celular. Quer dizer que em praticamente 3 anos (já que o final do mundo está marcado para 21/12/2012) os celulares não se derreterão nem com o calor de lavas borbulhantes, funcionarão com todos os satélites, antenas destruídas e não se abaterão nem com um tsunami gigante. De todas as previsões essa foi sinceramente a mais digna de riso.

Sempre escrevo sobre filmes que fui ver intencionalmente, esse foi um erro de percurso, e que erro, passem longe. Definitivamente o pior filme que já vi na minha vida.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Anticristo


Finalmente um filme do diretor dinamarquês Lars Von Trier que consegui assistir até o final e com vontade. Não diria que é um filme bonito, até porque é um tratado de doenças mentais levadas a cabo, mas é dolorido, chocante, irritante, revoltante, ou seja, toca em sentimentos íntimos e causa incômodo. Inquietante talvez seja o melhor adjetivo.

Infelizmente não encontrei tantas críticas quanto gostaria para poder entendê-lo melhor. Do que li: um fazia uma correlação com o filme e o livro de Nietzsche homônimo (interpretação que nada posso comentar já que não li o livro); outro considerava o refúgio do casal sem nome (só chamados de Ele e Ela) no Éden (uma cabana no mato) a recriação da Gênese bíblica se quem tivesse criado o mundo fosse o Satanás.

Em entrevista Lars Von Trier disse que não tem que explicar nada, que fez o filme para ele mesmo enquanto estava num período de depressão profunda. Relendo as interpretações acima e pensando nas minhas me pergunto se não são dignas de riso, como a raposa que passa e diz (é, a raposa fala) “o caos reina”.

São tantos símbolos, tantas imagens tocantes, tanta informação que ainda não digeri tudo. A seqüência em preto e branco é a de melhor qualidade de fotografia e música, apesar de sórdida, sarcástica. Enquanto o casal anônimo transa, o pequeno filho Nick se taca da janela em um bonito dia de neve.

Ela, uma escritora, que no verão anterior já tinha ido ao Éden com o filho com a finalidade de escrever sobre genocídios femininos questiona a todo o momento: seus medos, o que é o bem e o mal, o cerne e a razão de tudo após a morte do filho. Enquanto Ele é um terapeuta que cometendo um erro crasso de ética quer tratar a própria esposa e considera que as indicações medicamentosas são desnecessárias.

Enfrentar o Éden é a terapia (além de sexo) indicada por Ele. E lá é onde tudo se desenrola. Questionamentos, medos, cenas de violência e por fim a automutilação dela, que retira o próprio clitóris com uma tesoura. Acho que isso é meio óbvio que ela não se sente digna a ter prazer (ou sente culpa por senti-lo, já que viu o filho pulando enquanto sentia prazer sexual).

Não sei se o Éden é o inconsciente de alguém, se o veado tem algum significado, realmente não sei muita coisa, ou nada. O que acho mais plausível é uma alusão a gênese bíblica, um homem e uma mulher no Éden, descobrindo o bem e o mal e a constatação de que o prazer é um pecado a ser instinto, só o medo e a dor reinam.

Vale destacar que Ela sempre colocava os sapatos do filho trocados, o que lhe causou uma fratura constatada na autópsia. E ambos só percebem tal fato ao olharem fotos do filho. Na minha cabeça isso denota a ausência de sentidos, o não saber o que é direito e esquerdo, questionar o certo e o errado.

Por fim, é sarcástico no final do filme lembrar a frase que Ele fala para Ela ao sugerir a terapia “não existe ninguém que conhece melhor o que tem dentro de você do que eu”. Ninguém conhece por completo a si próprio, quiçá o outro.

Lição do filme: nunca deixe de tomar seus remédios psiquiátricos se um médico lhe prescrever...

sábado, 25 de julho de 2009

Um grande garoto


“Todo homem é uma ilha,
Se não sais de ti, não chegas a saber...”

José Saramago, em O conto da ilha desconhecida

Assisti esse filme devido a uma iniciativa da indústria farmacêutica Libbs, que resolveu fazer uma coletânea de filmes denominado “Cinema e Psiquiatria” e distribuiu para médicos. Sendo filha de dois, explicado meu acesso.

Mais um filme hollywoodiano que gostei. Uma adaptação agridoce do livro de Nick Hornby. É a história de um homem moleque de 38 anos, interpretado pelo Hugh Grant (Will) e um garoto de 12 anos Nicholas Hoult (Marcus). Os dois se identificam por se sentirem isolados. Will por ser um homem superficial e solitário, que vive de herança e nada faz, ele tem consciência do próprio isolamento, que considera inerente à modernidade, e não um sintoma de solidão. Já o garoto Marcus percebe sua diferença em relação à maioria das crianças da escola e não reage ao bullying diário, além de aturar alterações de humor da mãe ou sua passagem no hospital após tentativa de suicídio.

A mãe Toni Collete (Fiona) expressa meu mal estar com todos os elementos mais prosaicos da cultura pop, que habitualmente questionariam um diagnóstico de depressão: é uma naturalista radical, ativista feminista convicta e veste-se como uma hippie que não viu o tempo passar. Quanto a Fiona, fica nítido que o sofrimento gerado pelo quadro depressivo, a constatação dos limites da psicopatologia é mostrada em toda a sua grandeza, não só do ponto de vista do paciente, mas pelas pessoas que estão ao seu redor.

A parte bonita do filme é o enlace entre os personagens e sua conclusão, o cenário de um embate inevitável e a resolução por meio de uma nova convivência baseada no reconhecimento dos potencias e dos limites do próximo. Na vontade de estarem juntos numa busca (humana e eterna) de felicidade. Felicidade aqui entendida como possibilidade de adaptação às circunstâncias da existência.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O lutador


Confesso que já queria ter assistido a esse filme há alguns meses, mas só agora tive a oportunidade, sinceramente, podia ter ficado sem assistir. Absolutamente todas as pessoas que assistiram que eu conheço me disseram “você tem que ver esse filme, é maravilhoso”. Depois de assisti-lo tomei consciência que os seres que me recomendaram eram todos homens, daí ficou mais claro o encanto que este filme lhes causou.

Perdoem-me pela crítica extremamente ácida, talvez não tenha sido um bom momento para ver essa “obra”. Eu queria verdadeiramente ver alguma beleza, mas não vi nada. Um cara lutador, desacreditado, falido, num momento de plena decadência, insiste na carreira que um dia lhe trouxe glória (até aí tudo bem). Sofre um enfarte, tenta então 20 anos depois lutar com seu rival histórico, da luta que o consagrou. Literalmente se matando, vai à luta e vence, porque o outro o deixa vencer. Superação?

Soma-se o fato de o diretor, o mesmo de (Réquiem para um Sonho) Darren Aronofsky, tenta passar um ar de “coitadinho” para o protagonista interpretado por Mickey Rourke. Cara este hipertrofiado por remédios e exercícios excessivos, que abandou a própria filha que provavelmente teve com alguma fã que pegou na esquina quando ainda vivia seu momento de glória, antes de fazer bico em um supermercado atendendo clientes ou carregando caixas.

Randy (o carneiro) se vê completamente sozinho, aos seus 50 anos? Se for menos, ele realmente estava acabado. Ao invés de pagar o aluguel de um hotel fracassado, passa seus dias descolorindo o cabelo, fazendo bronzeamento artificial e freqüentando puteiros, além de tomar cerveja no café da manhã. É para ter pena de uma pessoa assim?

Para mim o que fica bem claro é que a solidão é inevitável para os viciados em trabalho, quem nunca deu valor aos laços interpessoais. PESSOAS PRECISAM DE PESSOAS, não há trabalho, estudo, dinheiro que cubra esse vazio.

Aos homens, que provavelmente acharam lindo o filme por gostarem da idéia de ter uma vida patética, solitária, doentia, uma dica: AMADUREÇAM !

Seres que podem ser chamados de lutadores, não são os que ganham na vida, e sim os que não desistem e não só do seu trabalho, do seu dom, mas do próximo, da família. O mundo não te aceita? Reveja seus conceitos e pense o porquê.