Na sociedade atual, com toda impessoalidade, solidão e amores líquidos, é tão difícil se relacionar profundamente com outro ser humano que estamos cada vez mais humanizando nossos cachorros.
Confesso que no início da minha infância eu tinha pavor a cachorros. Um medo tremendo, os olhava com estranhamento, não entendia como alguém podia amar um ser que machucava, mordia, destruía pés de móveis quando filhotes.
Porém aos oito anos resolvi junto com minha irmã (que compartilhava esse pavor) acabar com o nosso medo e comprar um filhotinho. Enfrentando a opinião contrária da minha família matriarcal imposta pela minha avó e mãe, entramos com a Minie escondidos pelos fundos da casa, com a ajuda do meu “contraventor” pai.
Na primeira noite aquele pequeno Poodle caramelo uivava de medo. Fui acordada pelo meu pai para ficar com ela. Sentei numa cadeira confortável e a acariciei, após alguns minutos ela dormiu comigo ali, aconchegada no meu colo. Neste dia descobri o que é amor incondicional canino.
Incondicional pois como criança eu a sacaneava, gritava quando ela fazia algo errado, a trancava quando mais velha para não entrar em casa à noite. E não importava a traquinagem que eu fizesse ela estava sempre ali, nos procurando, querendo carinho e atenção.
Minha avó, descendente de alemães, rígida, metódica, extremamente exigente se irritou muito com a chegada da Minie. Mas a D. Eulita era a única que não trabalhava, ficava em casa o dia todo, vivia em função de tornar a vida das suas netas a melhor possível. Gastava toda sua aposentadoria e pensão para pagar nossas contas, nossos cursos de inglês, francês, piano e por aí vai.
O inesperado aconteceu e a Minie se tornou a melhor amiga da minha avó, a ponto de dizer às visitas que não gostavam de cachorros que a casa era da Minie, se não gostassem, que não entrassem. Toda guloseima fora do regime comprada para minha avó tinha que ser em dobro, pois a segunda era dada a Minie. Se eu tivesse uma câmera hoje queria poder tirar uma foto da minha dura avó segurando um Chicabom para a Minie lamber.
Meses após a morte da minha avó, aos treze anos, a Minie morreu. Pensei em nunca mais ter um cachorro novamente, mas logicamente mudei de opinião.
Hoje tenho a Rosinha, uma maltês de cinco meses, minha companheira para todos os momentos.Vou passar 24h fora de casa e liguei para um hotelzinho. Fiquei muito surpresa ao saber que para passar essas horas lá, ela teria que fazer uma adaptação, nos primeiros dias a deixaria para acostumar a ficar num local estranho, com a intenção que ela entendesse que não estava sendo abandonada. Achei hilário pois foi exatamente o que fizeram na escolinha da minha sobrinha de dois anos.
Lembrando do livro Amores Líquidos de Baumann escrevo este texto. Os laços humanos são tão frágeis, temos tanto medo do outro, temos tanto pavor de como podem nos ferir que chegamos ao ponto de não nos envolver, ter relações com tempo limitado, distanciamento. Hoje é difícil encontrar alguém que queira um relacionamento menos rápido do que a velocidade da luz.
Mas se essa fosse a natureza efetiva do ser humano, por que humanizamos os cachorros ? Porque hoje os tratamos como nossos filhos ?
Temos necessidades de amar, “é impossível ser feliz sozinho”, mas o medo nos paralisa. Amor dói, decepciona, incondicional entre humanos só o amor dos pais (quando falamos de pais normais) que felizmente é o meu caso.
O amor entre um ser humano e um cachorro é seguro, recebemos mesmo sem dar nada em troca e infelizmente me parece que é isso que tanto encanta nossa perversa sociedade.
De toda forma, sugiro, amem também outros seres humanos, ao menos tentem passar com
o outro mais do que uma noite. Abram seus corações, se não fôssemos como adultos capazes de superar frustrações, choraríamos feito recém nascidos quando sentimos fome.
Tenho fome de amor, tenho necessidade do outro e assumir isso me torna humana, mesmo “démodé” para nossa sociedade pós moderna.