quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Passagem autobiográfica # 1

“Vou-me embora pra Pasárgada” – Manuel Bandeira

Aos dezoito anos, quando vim para a selva de pedra, tinha a ilusão pueril que o sucesso, a felicidade a realização pessoal dependiam exclusivamente do local onde eu estivesse e assim vim para a “terra das oportunidades”.

Confesso que tinha a ousadia de criticar minha terra Natal, seus costumes aristocratas, a falta de cultura das pessoas, a mesmice que assolava o dia a dia de seus habitantes. O calor também era insuportável, lá eu não era transparente em função do Sol constante.

Em São Paulo realizei o sonho de outrem. Consegui me formar na melhor faculdade de Economia da América Latina, tive aula com professores livres docentes que escrevem nas colunas nos jornais de maior tiragem nacional. Tive aula com o irmão do Chico Buarque (diga-se de passagem, ótimo pesquisador, péssimo professor).

Aprendi muito, ainda aprendo diariamente, imersa nesse caos de diversidade de cultura, gente, opções sexuais. Vários dos meus preconceitos se dissolveram, aprendi aqui o valor do dinheiro, do trabalho suado. E sim, almejo continuar aqui para seguir minha carreira que se iniciou junto com a faculdade.

No entanto, acredito que muito têm a aprender os paulistanos em cidades como a minha. Principalmente a se humanizar. Não ter medo do próximo, dar valor aos vínculos, às amizades. Afinal, dia ou outro todo mundo precisa de alguém, e na bolha que as pessoas criam aqui nem quero imaginar a dor de ter que estourá-la quando necessário.

Não importa onde eu esteja, e sim como estou por dentro, o local externo é uma mera paisagem se não souber aproveitar. Fico feliz em passar alguns dias com meus pais, receber o calor não só do Sol, mas principalmente o humano. Deixar um pouco minha transparência paulistana e ser alguém que faz diferença na vida de outras pessoas, alguém com nome e sobrenome, e não mais uma na multidão.

Não pertenço a nenhum lugar, continuarei sim aqui, mas sonho em um dia encontrar minha Pasárgada.

3 comentários:

Tiago Moralles disse...

O problema da nossa São Paulo é que muitos esqueceram que a grandeza da cidade não deveria ofuscar a grandeza das pessoas.

Anônimo disse...

Efetivamente, São Paulo é uma das cidades mais desenvolvidas do mundo - e digo isso sem a menor pretensão de parecer invejosa, haja vista ser uma "interiorana da gema"!! A toda hora têm-se literalmente o que se quiser nessa cidade.
Seria perfeita se as pessoas fossem, como a Mô mesma disse, mais calorosas - o que, aliás, temos em excesso até em nossa cidade.
Mas, que fique registrado, tenho orgulho de ter aqui nascido e, por mais que meu sonho fosse morar em SP e "ser companheira de quarto de uma grande amiga", já fico satisfeita em ter nascido na mesma cidade que ela e receber suas visitas - cada vez mais raras!
Grande beijo!

Anônimo disse...

São Paulo é uma cidade maravilhosa! Não digo isso pelo fato de ter nascido aqui na capital. Alias capital oculta do Brasil. Essa cidade ha 100 anos atrás era como uma cidade qualquer. São Paulo não surgiu bela e planejava como sonhamos. Fico lembrando dos comentários nos ônibus parados no transito caótico onde muitos reclamam de São Paulo; que na cidade tal é melhor que sua terra natal e muito melhor e blá, blá, blá! Mas essas mesmas pessoas saíram de suas cidades do "sertão" fugindo da seca e da fome; cidades do interior onde não tem emprego dos sonhos para comprar a casa dos sonhos; o carro dos sonhos e tudo mais. Acredito que se esta assim, deve ao fato de não terem cuidado do seu sonho. Como se pode falar de um lugar aonde as pessoas vieram atrás dos seus sonhos que em suas cidades não podem realizar e depois degrada esta cidade, mesmo que verbalmente? Se em São Paulo as pessoas são má educadas, frias? Ai me lembro dos resultados do Censo, das historias dos Imigrantes e tudo mais. São Paulo só é assim pq o povo deixou que ficasse assim. E quando chega no fim do ano abandona a cidade de pedra para retornar aos lares onde não existiam os conflitos de interesses pessoais.